quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Devaneios

Não creio em astros que nos unam
Ou em deuses que nos separem...
O destino dos nossos dias
Esta escrito por dentro
E sempre se manifesta
No vibrar de cada células,
Quando nossas vozes se calam
e se colocam nossas peles...



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Solidão


Quando dizemos que não há meios de escapar da solidão, não queremos dizer que isso é difícil, mas que é completamente impossível. O que as demais pessoas conhecem a nosso respeito são apenas nossas bocas movendo-se diante delas, e as ideias que constroem a partir disso; em suas mentes, isso resulta numa visão de nós mesmos tão deturpada quanto a visão que temos delas, que nos parecem existir apenas do lado de fora; e não nos enganemos, nós passamos essa mesma impressão. Contudo, assim como elas, nós existimos primariamente num nível privado que é inacessível, significando que todo e qualquer contato sempre acontecerá de forma indireta. Isso nos permite compreender que não há situação em que seria possível escapar da solidão. Apenas podemos supor que um contato direto seria agradável, mas isso é algo que imaginamos pelos verbos que vemos sair de outras bocas, que se assemelham ao que nós próprios murmuraríamos. Talvez fosse agradável ter um contato direto com a consciência de outra pessoa — e não apenas com seu vocabulário —, mas isso é impossível. Em relação ao íntimo uns dos outros, somos todos estrangeiros vivendo seu exílio pessoal. Cada qual está trancado em si próprio, e só conhecemos o que os demais dizem de si, nunca eles próprios; e nós também nunca seremos conhecidos, apenas ouvidos sobre aquilo que dizemos de nós mesmos. Em suma, a solidão é a consciência de que vivemos sozinhos em nossos corpos, e só podemos entrar em contato com outros indivíduos por meio de gesticulações que nossos corpos executam — exatamente como se cada qual morasse sozinho em uma casa, e só pudesse entrar em contato com outros indivíduos por meio de cartas, sem jamais conhecer o interior de outras residências.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Alhures

Le bonheur n’est pas chose aisée: il est très difficile de le trouver en nous, 
et impossible de le trouver ailleurs.


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O Anticristo

As condições sob as quais sou compreendida, sob as quais sou necessariamente compreendida – conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumada a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação – nascida da força – para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo – acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo...

... Que importância tem o resto? – O resto é somente a humanidade. – É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma – em desprezo...


Quem vai dizer tchau?


Quando aconteceu? 
- Não sei.
Quando foi que eu deixei de te amar?
Quando a luz, o poste não acendeu?
Quando a sorte não mais pôde ganhar?
- Não.
De longe me disse um não
Mas quem vai dizer tchau?

Onde aconteceu?
- Não sei.
Onde foi que eu deixei de te amar?
Dentro do quarto só estava eu
Dormindo antes de você chegar
Mas, não,
Não foi ontem que eu disse não
E quem vai dizer tchau?

A gente não percebe o amor
que se perde aos poucos
sem virar carinho
Guardar lá dentro o amor não impede
Que ele empedre mesmo crendo-se infinito
Tornar o amor real é expulsá-lo de você
Para que ele possa ser de alguém

Somos, se pudermos ser ainda
Fomos donos do que hoje não há mais
Ouve o que houve
E o que escondem em vão
Os pensamentos que preferem calar
Se não
Irá nos ferir o não,
Mas que não quer dizer tchau.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Megalografia


Acumular potência para a investida
Coroar o início com uma jura sumária
Adiantar-se no tempo – um lapso
Negar do presente o impreciso
Imprimir seu ímpeto no futuro
Trespassar o destino em atos
De uma audácia inaudita
Ignorar história e estatística
Numa marcha implacável
Onde o dúbio é uma piada

Antes de qualquer confronto
Ser a vitória por princípio
Desviar-se da sujeira
Dos restos prostrados
Daquilo que não merece
Tempo para ser derrotado
Por uma fúria tão esplendente

O sumo da vontade de potência
Estrondosos passos irresolutos
Cavando fendas categóricas
Não uma arritmia histérica
De covardia estratégica
Mas um fato consumado
Antes do tempo alcançá-lo

Ser distinção absoluta
Em altura vertiginosa
Separando o alarido
Programado e vulgo
Do silêncio imposto
Pela hegemonia patente
Da uma altivez inconteste
Que superou a si mesma
Que destronou o mestre
Sem um risco de suor
Sem traços de sangue

Findada a trajetória
Mergulha na nulidade
Da imunidade concludente
Envolta em letargia e negrume

Sua potência bestial adormece
Vendo o presente fazer-se mudo
Desvanecer num abismo vago
Onde tudo está consumado
Num universo solitário

Assim espera no tempo
Um dia vazio que desponte
Trazendo ao viver liberdade
Para mais café e videogame

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Escolhas


Arrasto o passado ao futuro
Para saber quem sou
Arrasto o futuro ao horizonte
Para saber aonde vou
Arrasto, em círculos
Como um asno parado
No presente que se esquece
Como convém que se faça
Quando a mentira é tão grande
Que pensar não compensa

Que se dirá da besta
Que ousar ser honesta?
Soltar os arreios
E observar tudo isso
De uma fresta
     [quadrada?

Tanto faz o fato do formato
Dum astro que nunca serviu
Para nada senão horrorizar
Iluminando caminhos turvos
Da escravidão preventiva
Ou da prisão definitiva

Serão todos o mesmo dia
E em todos as mesmas cenas
De uma mesma comédia
Pois que gracejo do destino!
Se enganou quem apostou
Que nunca haveria escolhas

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Passagem



Despeço-me do sonho de viver
Do delírio de um dia conseguir
De uma vez apenas ter as mãos
E o coração onde quero e como
Sem desviar disso como perda
Do tempo que perco sem pesar


Não, não acredito mais em mim
Nem no que invento para dar-me
Uma segunda, outra chance
De provar o contrário
Do que sempre foi
A minha vida


Se abrigo algo com afeto
É porque já está morto
Porque aprendi o traquejo
De não me abraçar ao que muda
E não pensar-me preciso quando sou
                              [meia


Minha saudade é sempre mais amável
Minha memória diz mentiras perfeitas
Que nenhuma realidade desmonta
Em um punhado de palavras e outro
              [de vulgaridades
Mesquinhas em entrelinhas
Que me fazem sentir a vida
Como se sente uma pedra
                [no sapato
De quem precisa correr atrás
Correr, com passadas medidas
Correr, sem ter qualquer meta 
E chamar a coleção de feridas
De história da sua vida


História de um idiota
Certezas de uma besta
Percurso de um imbecil
Objetivos de um estúpido
Me trouxeram até aqui
Foi a história de um erro
Levado até os últimos fôlegos 
                [do engano
E cuja hora já passou


Agora, resto assim
A sujeira e os cacos
De um sonho perdido
Da amizade com o erro
Do sofrer sem o orgulho
Da luta para ser infeliz
Da solidão de uma palhaça
Esforçado em levar-se a sério


Agora
Esforço-me para ver-me passar
E somente passar em branco
              [ao negro

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Íntimo Desespero



"... Mas não atravessou algum limite, não deu algum pulo que faltava.
E ficou afundada até o joelho no oceano dos medianos, onde os rompantes de inteligência
transformam-se em tiradas de humorzinho culto e se desfazem no ar ... Não há fronteiras para onde alguém pode ir. Há, no entanto, dentro de todos nós, um alarme contra as correntes mais fortes. Nunca temi afogar-me..."

Fragmentos de uma década



Aqui
Nesta celestial vacuidade
Onde tudo é provisório
Nasce acabado e corroído
Cada qual à sua maneira
Contorce-se e se reinventa
E morre sem ter vivido


Grande ou pequena
Cada qual abraça sua quimera
Nessa dança ridícula da vida
Onde se chora para então sangrar
                  [todos os dias

Quando a infância se despede
Deixando as lembranças
Levando uma amplitude de ser
Delas retiramos descrições
As mais belas invenções
Nutrindo toda beleza
Profusão de ideais
O dobro de tudo
Pintado em todas cores
Num quadro num quarto da memória
                    [dos plágios

Ao meu lado, vida real
Algumas variedades
De perspectivas delirantes
Três sentidos da vida:
Tomar banho, beber café ou dormir
Enfada...

O problema não é a cura
– dizem –
Nem é a doença
O problema escapa pelas mãos:
As coisas pequenas demais
Onde dizem estar a felicidade
– serão aleijados voluntários
ou incapazes do que é grande? –
Seria isto, então, o problema:
Nascemos sem os óculos – da alma?
Nascemos sem os nervos – dos heróis?

Quem cresceu para aprender
A ver com o coração
Quem esqueceu para voltar
A ver com os olhos
Conhece as minas da fascinação
Os espelhos que ofuscam a razão
Os espelhos que refletem a ilusão
O espaço vazio entre tudo – o vão
A repulsão entre tudo – a contradição
Será que ela se abraça
Ou ignora a explicação?
Que culpa teria o erro?
Prometeu alguma verdade?
Que prometeu um sentido?
Que trocaria a escolha
Pelo sorriso plastificado
Da felicidade obrigatória?

– se é que vale a pena –
Vai e mira qualquer coisa
Além dela mesma
Pois como é triste viver
Em meio à matemática
Sem nenhum enigma
     [sem resposta
Sem nenhuma paisagem
Lançando véus e enigmas
A cobrir este lamaçal de vida

Toda solução indica o nada
– o fim prematuro da jornada –
Que dá numa encruzilhada
Onde há um milhar de duas placas:
Seja bem-vindo! Boa viagem!
(aqui é o começo)
(aqui é a chegada)
Somente resta a disposição
                  [indisposta
Em explicar o porquê de uma rota
O porquê de um passo, do movimento
                       [dessa música
De somente uma nota

Digo isso porque, nesta cadeia
Encontrei a minha resposta
(de longe, era tão bela...)
Não era igual a todas:
(um meio) – Era o derradeiro
Âmago do absurdo
O cerne a contradição
As vísceras dos átomos
Entoando uma melodia pródiga
Tão amarga, verdadeira
Que me fiz prisioneira
(seria uma eremita
se houvesse um caminho
pelo qual regressar)
Forjei minhas correntes
E espero: um há de ceder
De se decompor primeiro

m meus sonhos
O detector de metais acusa:
Uma arma apontada à cabeça
(como invejo esta máquina...)
Este é o único sonho
Em que sei ser feliz:
Sentindo a liberdade
Rasgar as couraças do peito
As mãos, os pés – obedecem!
As cores sonhadas, renascem
De uma memória abandonada
Por um segundo, um vislumbre:
Tenho todas as escolhas
Mas por que nenhuma?
Sonhos são para um só dia

Nunca chega a hora
Mudo, nada muda
Volto, nada muda
Avanço, nada muda
Desisto, e me empurram

Mas não aprendi a dançar
Não aprendi a caminhar
Não aprendi as certezas
Dos passos firmes
(sabe lá para onde)
(sabe lá para quê)
Cada movimento
Em tudo que tem valor
Só me gera a sensação
De que nunca saí do lugar
De que me comportei
Devidamente: como um aleijada
Nunca chega, hora nenhuma!

Não que, no fundo, seja diferente
Não que, no íntimo, seja especial
Como exemplar dos qualquer-um
Sou também uma pequena merda
E será minha felicidade evaporar
        [todo o esgoto das veias
Tudo aquilo que se ensina a calar

Vazia
Procuraria pelas palavras
De uma despedida tão altiva
Que a arrogância das máquinas
                [se curvaria
E me daria boas-vindas
E me abraçaria o rosto
           [decomposto
E o germe estéril
Que criou o homem
E uma realidade insólita
                    [nele
E uma inquietude estúpida
                  [em nós
De não querer não desejar
              [não sofrer
Permanentemente
Suicida potencial
Sufocando a cada respiro
              [frustrado
Somente na morte
– entrementes –
Entre mentiras e entorpecentes

(mas não é preciso escolher o fim
podemos optar pelo medo cansado
baixar a cabeça, suspirar, esperar:
– acorrentados ou caminhando –
no fim, não temos escolha
sonhamos no mesmo lugar...)

Seja bem-vindo!
(aqui é o começo)
Abrace sua quimera!
Boa viagem!
(aqui é a chegada)
Hora nenhuma!



Onde o vazio e o nada se encontram